deformei a cara boa que tinha o seu sorriso
(hoje pisado
somente pra mim)
e o espelho ontem me disse:
parabéns, imbecil,
você venceu.
Você me faz acreditar
A distância é imprecisa,
Aquele instante
DE(U)SAPARECER
Embriões atados a molas insólitas de extasiados humanos,
Estranhos seres do asfalto repugnante
Que destroçam sem piedade instintos e caminhos
Por uma sombra que os protejam do sol.
No mais profundo dos contrastes,
(Engomado e olhando de lado)
Usufruí pela primeira vez do meu mundo ilusório
Admitindo a partir de então que não era d(D)eus,
Este d(D)eus do mundo de sonhos,
Sonhos castrados em segundos;
Este d(D)eus atrapalhado e pisado,
Desanimado e com vermes nos olhos.
NÃO QUERO FRASES FEITAS
Formulação da palavra.
A cabeça gira,
Palavras formarão frases.
De tanto girar,
Começam a sangrar.
Todos os orifícios faciais
Experimentam agora
A deliciosa sensação
De empíricas cachoeiras.
Um vulto torna a formulação da palavra
Algo assustador,
De forma que a cabeça girará
E da boca sairão frases
Formadas de palavras,
Todas cuspidas da mesma boca,
Transformando as paredes
Em belos quadros
Pincelados de vômito.
A loucura ignora a formulação da palavra
E a faz chorar,
Molhando as palavras mal formadas
Que estragam as frases
E causam aftas por toda a boca,
Até que surge um daqueles
Que manda sal nas feridas,
Para que dela brotem, por instantes,
Rosas de carne rosadas.
O MENDIGO NO OUVIDO DO MENDIGO:
"Até onde me entendo
Até ontem me entendia;
Até tarde da noite
A espera que pulsou
(A espera pulsando),
As horas correndo
Ao encontro do que
Nem se sabia existir...
Ainda hoje me entendo:
O canalha,
O viciado,
Perdido,
Lacaio do sistema,
O mendigo
Pedinte
De sempre...
Amanha é o desafio
Do entendimento
De pelo menos o meu ser,
Aquele que me conduz
Entre estes bilhões que sou,
Entre estas montanhas sonhadas,
Entre estes ventos
Que resfriam o corpo."
"Um estampido tão perto assim, nem adianta disfarçar: a linha de tiro é logo ali. Logo ali entre os homens, mulheres, crianças e suas casas. A chegada do trabalho, a volta da escola, o tormento destes hospitais, a obscuridade sorridente dos seres humanos tão corajosos quanto medrosos. Mais um dia que se vai e estas balas espalhadas que sempre encontram alvos perdidos aceleram o meu desejo de buscar alguma paz daqui longe demais.
Queria ver o sol de um lugar mais amplo, namorar à luz da lua... Queria descobrir formas nas nuvens carregadas da bendita chuva com meus pés descalços a deslizar pela lama repleta de seres imaginados pelos instintos, libertos de suas algemas. Queria um mergulho nas águas do rio, a temperatura divina equilibrando minhas energias e a sensação de ser um glóbulo naquele sangue que escorre pelas veias expostas e ainda não destruídas daquela cadeia de montanhas.
Já fechei em mim alguns olhos cegos e reparti os restantes entre meus famintos versos e alguns instantes calados. Um pleno mistério esgueirou-se pelo muro que eu construía e num instante de fúria o que se encontrava de pé bateu com os joelhos no chão e tombou, cabeça no esgoto. Fechei para mim algumas portas e outras abri, menos mortas, que de morte já me basta aquela do futuro inesperado."